Fevereiro 24 2007

Dizem alguns, claro está, que as três palavras mais difíceis de pronunciar, de dizer, de expressar, de demonstrar, são precisamente:

 

Amo-te

Desculpa e

Obrigada

 

Claro que não necessariamente por esta ordem, mas contudo, a escabrosidade parece-me a mim, não será muito diferente, visto serem igualmente as três, penosas e árduas de declamar, como se o esforço fosse superior ao reconhecimento. “Amo-te”, tantas vezes atirada inutilmente para o ar, deixando aos poucos de fazer sentido por ser usada e abusada no quotidiano, onde o amor acontece claro está, mas onde o seu uso pouco tem de amoroso, penalizando a repetição constante, o apego à sua força mais íntima. E depois ou em certos momentos, sentimos a sua falta, num abraço, num carinho, num olhar, como se fosse vergonhoso demonstrar o que sentimos e como sentimos aquilo que admiramos. Como se não fosse válido ou correcto amar, desejar, adorar, cuidar e mostrar tudo isso. Como se apenas as guerras e as armas fossem merecedoras da nossa total aceitação e complacência. Como se ficássemos mais pequenos ou mais expostos ao outro, por aparentar a nossa qualidade de sentimentos. Como se gostar fosse mau, enfermo, deplorável, vergonhoso. Enquanto admitirmos pacificamente as armas, nunca aceitaremos aquilo que em si é a nossa única defesa universal: o amor, nos mais variados tipos. Talvez por isso, por andarmos ao avesso das nossas convicções, seja igualmente difícil dizer: “Desculpa”. O orgulho, mascarado muitas vezes do amor-próprio (lá está o amor, sempre presente), irrompe quase sempre na falta de um pedido de desculpas, como se também fosse um sacrifício reconhecermos as nossas falhas e erros, como se fosse uma abnegação sermos humanos com ausências e defeitos. Como se errar não fosse natural e saudável, como se falhar não fosse próprio de quem arrisca todos os dias amar, sem se dar conta disso. Escasseamos muitas vezes, e lembramo-nos de esconder (quase que por obrigação), de agradecer (também), de reconhecer a dadiva e brindar por teremos sido contemplados com uma ajuda, com um sorriso, com um gesto, com um convite, com uma flor. “Obrigada”, parece também tão enfadonho, que seria moroso evocar, as várias razões para se agradecer, para se reconhecer, para se continuar a dizer: obrigada sim e obrigada não. Parece realmente difícil, talvez por não estarmos habituados a reconhecer e encarar, que a omissão é muitas vezes uma indulgência, que somos forçados a admitir, para fugir às nossas obrigações e sentimentos. Deveria ser bem mais fácil, sermos francos connosco e com os outros e pronunciar estas três palavras no sítio certo, para com a pessoa certa e no momento certo, que é seguramente aquele que quisermos e ambicionarmos. Talvez hajam afirmações mais difíceis, de dizer ou elidir, mas com toda a certeza, estas três palavras estarão seguramente para todos nós, e pelos mais variados motivos, ausentes na sua quantidade e qualidade, do nosso diário real ou fantasmagórico. E já agora, e porque o AMOR tem destas coisas, DESCULPA qualquer coisinha e OBRIGADA por tudo.

publicado por bailys às 09:08

Fevereiro 19 2007

Gostava de poder escrever sobre muita coisa, sobre o amor e o ódio, sobre a guerra e a paz, mas penso que a vida ainda não me deu tempo suficiente para poder perceber e transcrever tudo em palavras e frases bonitas e comoventes. Realmente pouco sei do que se passa, ainda tenho dificuldades em definir muita coisa e com os dias que passam vou percebendo que é mesmo complicado sermos simples e que por vezes andamos iludidos com coisas supérfluas que nada valem, que nada servem. Desviamos (ou desviam), a nossa atenção e as nossas energias para focos sem importância e perdemos na vida e com a vida muito mais do que ela nos oferece. Porque também é preciso estarmos preparados para receber e perceber. Também é preciso estarmos preparados para sofrer. E por muito que não se entenda, penso que o sofrimento faz-nos bem. Sim faz-nos bem. Conseguimos avaliar aquilo que é realmente bom e necessário. Talvez aquilo que nos faça sofrer e andar solitariamente só, seja algo importante para a nossa visão da vida e do mundo que pouco tem de redondo. Muito pontiagudo, muito quadrado, muito áspero em certos sítios ou momentos. Tudo e todo aquele que nos provoca amargura, tristeza, desconsolação, talvez na realidade não nos mereça na sua plenitude, na sua essência mais redondida, na sua escuridão deixada gratuitamente e desoladamente. Mas acabamos por ganhar muito mais do que meras lágrimas ou soluços. Ganhamos um olhar intimo e geral daquilo que somos capazes de superar, de reconstruir, de ultrapassar. Conhecemo-nos melhor, a nós e ao outro (àquele que nada merece, perante o nosso sofrimento real e dorido), e ao mundo também. Conseguimos dar o devido valor à nossa audácia e intrepidez, que por vezes pensamos não haver em nós. Custa crescer, talvez por isso custe sofrer e avançar. E passamos a odiar, talvez por ainda amar. Mas tudo passa, e o sofrimento e a dor, assim como a mágoa dá lugar a sentimentos mais nobre e qualificantes, mais resistentes e sólidos, mais humanos diria mesmo.

Superamos o pior dos outros e encontramos o melhor de nós, e talvez não exista outro caminho para chegar mais além, mais interiormente. Talvez o sofrimento que tantas vezes nos empola a fugir e a gritar, seja o trilho para a construção dos pilares do nosso ser, do nosso existir. Quem nunca sofreu? Quem não aumentou o seu potencial e o seu horizonte? Ficamos mais gelados? Mais exigentes? Mais egoístas? Mais solidários? Mais humanos? Talvez não fiquemos nada disto e tudo ao mesmo tempo, mas com toda a certeza ficamos mais diferentes e menos indiferentes nos trilhos que vamos percorrendo às vezes a sonhar outras a idealizar. Afinal sofrer faz parte da vida que muitas vezes não escolhemos para nós. Sofrer afinal faz bem, a nós que conseguimos enfrentar os nossos medos e a nossa solidão sem acreditar no nosso potencial incansavelmente duradouro. E por muito que custe, transformar a pedra que nos atiraram, em degrau, o nosso salto vai depender disso, desse degrau e da nossa subida para outro nível, para outros conceitos e realidades. E quando dermos por nós, seremos os primeiros a perceber a nossa evolução dentro do nosso próprio sofrimento, que pensamos ter vindo para ficar. Desenfreadamente, quase que por loucura, deixamos de ver, o que há muito não existia e que provocava consternação, lágrimas e desilusões, numa tempestade que nos apanhou de surpresa com muito pouco espanto.

Tudo o que é bom, dizem, dura o tempo suficiente para não ser esquecido. E tudo aquilo que pensamos ser mau dura exactamente o tempo essencial para não ser ignorado, para não ser em vão. Sofrer é admitir as fraquezas que encontramos e encontrar alento no espirito que ignoramos.

publicado por bailys às 00:35

mais sobre mim
Fevereiro 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
20
21
22
23

25
26
27
28


pesquisar
 
subscrever feeds
blogs SAPO